O ENFORCADO

Trago nas mãos as notas de uma lira despedaçada. É a música dos loucos dedilhando saudades e sonhos perdidos. Reviro o mundo pelo avesso, pendurado sob o céu e amarrado a pedras para não despencar em queda alada. Deixo as ruinas para alcançar os corpos invisíveis de um tempo impreciso, sufocando sonhos, criando outros, num pêndulo invertido. Sendo, sou minha aparencia em pólos inconsiliáveis. Sendo, desmancho verdades e construo devires. Bem vindo ao (des)mundo do (in)verso.

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Domingo, Janeiro 28, 2007
 
FIM DE FESTA

amanheço nas pulsações
das horas reviradas
acordando noites
despertando sonhos
acariciando corpos
dedilhando valsas
atravessando o tempo...

adormeço dias incompreensíveis
na metamorfose dos dedos
através dos reflexos espelhados
de quimera e vida ácida
nas noites de nuvens vermelhas
e tempestades líquidas
sem girassóis.

(L. F. Calaça | 28/01/2007)

Domingo, Janeiro 21, 2007
 

Pretoebranco22. L. F. Calaça (20/01/2007)

tarde

às vezes enlouqueço nesse mundo pára-raio. estou um pouco surdo de meu lado esquerdo, sinto os sons adormecendo sem chegar ao foco. às vezes suicido numa dor de cabeça infeliz, latejando dores que não posso dizer, pois engulo emoções sem válvula de escape, sem lanterna, sem bússola. quero dormir nú com o mar batendo em meus pés, olhando as estrelas mortas que ainda teimam em emitir luz milhares de anos após o aniquilamento. gostaria de ser palavra provérbio, não, queria sem palavra preceito, palavra presságio, palavra revelação apocalíptica, desejo de finitude e infinitude, nos compassos arritmados dos corpos lunares. queria ter um olhar doce, daqueles de criança perdida no escuro sonâmbula. queria amanhecer saudades intermináveis e romper barreiras do indizível para viver plenamente meus sonhos. e de tanto querer acabei perdendo o rumo das noites felizes, das ilusões quiméras, das visões de um planeta distante de luzes poliédricas. loucura. loucura. loucura. rio desses que se atravessa com o peito, com as mãos enlameadas de revolver a terra empapada pelo sangue e pelas lágrimas de mim. queria escrever sem paradas na estação central, mas o coração é bomba hidráulica. ai ai, como o corpo é pedaço perfeito daquilo que pedimos trégua e ao mesmo tempo é parte toda de meus caminhos de areia escura amortecida. nada parecido com as marcas de unhas que deixo sangrando no silêncio de um quarto todo branco. meus olhos trincheiras abandonadas. meus dedos dissolvendo grãos de neve. nunca senti frio suficiente para ter um coração. mentira! sempre tive um coração desejando um corpo atado ao peito, segurando meus sonhos com delicado toque. o que escrevo aqui se dissolve. perdi meus medos de solidão, mas ganhei a nona sinfonia. amar é morrer pouco a pouco. não quero saída. sou meu próprio pé. e vou.

(L. F. Calaça | 21/01/2007)

Quarta-feira, Janeiro 17, 2007
 

...

 
PARTILHA

O mundo invertido

Os corpos lunares

As gotas de vidro

Os homens seguidos

pelas formas angulares

das brisas, das sombras

das noites perdidas, no escuro

pedindo trégua, pedindo água

Minha alma se dissolve agora

na lombada de um túnel

na abertura da escada

na passagem, o cometa

Na memória, histórias

no ocaso, destinos

na marcha, o corpo

- dependurado pelo pé -

arrancando preces

arrastando crianças

medicando feridos

triturando ossos

afogando maçãs.



...como um albúm em chamas.

(L. F. Calaça | 17/01/2007)

Terça-feira, Janeiro 16, 2007
 

Gestalt 03. L. F. Calaça (13/01/2007)

FUTURO PRETÉRITO

- E se eu enlouquecesse?
- E se eu amanhecesse?
- E se eu adormecesse?
- E se eu atravessasse?
- E se eu amordaçasse?
- E se eu voasse alto?
- E se eu caísse longa-mente?
- E se eu pedisse abrigo?
- E se eu pedisse ajuda?
- E se eu gritasse alto?
- E se eu acordasse (no escuro)?
- E se eu pichasse um muro?
- E se eu sofresse mudo?
- E se eu amasse tanto (que deixasse de sentir)?
- E se eu afogasse o infinito?
- E se eu perdesse o suspiro?
- E se eu perdesse a rima de um poema de amor?
- E se eu fosse possuído?
- E se eu te possuísse?
- E se eu te amasse num entardecer, clandestino?
- E se eu sorrisse lágrimas?
- E se eu cortasse a linha?
- E se eu andasse na praia, apontando o Sol?
- E se eu fosse a Lua?
- E se eu te amasse apenas?
- E se eu morresse hoje?
- E se eu doesse?
- E se eu ferisse?
- E se eu tirasse sangue do peito?
- E se eu tirasse um grito dos lábios?
- E se eu obstruísse?
- E se eu virasse esfinge?
- E se eu virasse santo?
- E se eu caísse no poço?
- E se eu enfurecesse?
- E se eu parisse o dia?
- E se eu fosse enforcado por heresia?
- E se eu virasse brisa?
- E se eu virasse águia?
- E se eu fosse um rouxinol?
- E se eu te amasse hoje?
- E se eu não existir?
- E se não houver futuro?



...



- Não sei!

Hoje sou sonho.

(L. F. Calaça | 16/01/2007)


Domingo, Janeiro 14, 2007
 
SACRÁRIO

Neste quarto-claustro despimos nossos hábitos
e cultuamos o amor ilimitado dos corpos nus
sob o olhar de um céu de espelho, lago metálico
como vitral ou afresco de catedral sagrada.

Meu amor, cato palavras para exprimir o não dito
quando caminhamos em silêncio pela cidade suja
insuspeita de nossos segredos inconfessáveis
a não ser nas dobras de um lençol branco de pernas laçadas.

Nossos corpos, hóstias repartidas e consagradas
é a materialização dos cantos de graças à Vida,
Comunhão nos mistérios de se conceber o invisível
enquanto cantamos amores e rompemos limites.

Amor... trago seu nome gravado no corpo revelação
como chaga doce e sempre reaberta, sangrando
fonte perene de meus desejos azuis.

(L. F. Calaça | 14/01/2007)

 
LÁBIOS

Gosto de amores que sangram na abundância das pulsações.
Amores canibais, carne viva devorada em ritual sagrado.

Gosto de amores-orgasmo, que jorram e explodem a criação do homem.
Amores meteóros, fazendo cratéras seculares nos peitos sonhadores.

Gosto do amor que é amor, sem restrições, ilimitado.
Amores santos e pagãos, amor herético do mundo.

(L. F. Calaça | 14/01/2007)


Sábado, Janeiro 13, 2007
 

Gestalt 02. L. F. Calaça, 12/01/2007.

CARTA VIRTUAL

Ando nos versos. Sou poeta, afinal. Mas estou também nos (in)versos. Não sei se meu caminho será a unidade ou a loucura. Penso que ando naquela corda-bamba dos tentados. Só sei que me sinto bem em momentos do conjunção, em que me encontro com um outro, com um TU que me faz sentir EU. Algo meio buberiano, como te disse, do encontro e do diálogo, do sensorial e intuitivo. Meus versos não são racionais e intelectivos, são desvairados como meus sentimentos, intensos como chama, como um inferno dentro de mim, que me devora, mas que me constitui, que me dá sentido, que me re(des)liga. Minha religião atéia de um amor que não se sabe, mas que se sente, numa confusão que é incoerente, mas verdadeira, como a fala de um louco que rasga as roupas e se joga no caos. Teimo pelos que tentam enfrentar essa loucura-mim, meu desafio abissal, meus sentimentos incontrolados, mas ando na serena convulsão das palavras, na explosão dos sentidos e na configuração dos amores plenos de presente.

(L. F. Calaça | 13/01/2007)

 
MINHA BIBLIOTECA GESTALT...



...E MEUS LIVROS DE CABECEIRA

Fileiras duplas...
Fileiras duplas...

Precisando de mais espaço
pra expandir meus sonhos.

(L. F. Calaça | 13/02/2007)

Quinta-feira, Janeiro 11, 2007
 
EU...

Contrariando o perfil orkutiano geral dos estudantes de psicologia,
as expectativas dos etólogos e evolucionistas
e os desejos de minha mãe canceriana, eu afirmo:

...SOU UM SER EM DESCONTRUÇÃO!

Amém.

(L. F. Calaça | 11/01/2007)

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007
 

Kazuo Ohno.

"Não me interesso pelo pensamento lógico, racional. Estou preocupado em questionar o espírito. Acho que a própria vida inclui algo de louco, de incompreensível, que escapa ao pensamento racional. Por exemplo, no momento da concepção existem milhões de espermatozóides tentando fecundar um óvulo, mas apenas um consegue. É puro acaso. É a mais completa desordem. Não há organização alguma. Sob o ponto de vista racional, isso é louco. Entretanto, sob o ponto de vista espiritual, essa imponderabilidade, esse acaso, é muito importante. Quando a arte tenta surgir do pensamento lógico, racional, não tem sentido. A única maneira de fazê-la aflorar é através do espírito. Penso que a arte é o nível mais alto a que pode chegar a expressão humana. E o seu principal objetivo é transformar a vida. A arte é sempre profundamente relacionada com a vida e a morte, a alma e o corpo. Algumas vezes é impossível ao pensamento lógico compreender isso. A arte tenta desvendar o mistério de viver e morrer"

Kazuo Ohno. (1906-), mestre do Butoh

 
O ENFORCADO


foto de: Janaína Calaça e L. F. Calaça, 2006.



fui enforcado por heresia, blasfemando contra o nome de um deus de asas pretas
tive meu corpo chamuscado pelas brasas de um amor cortês materializado
em minha pele, queimada pelas chamas intensas do desejo incerto
e impregnado do aroma dos incensos e das carícias de quem serve a hóstia como pão

fui enforcado e minha cabeça-pecado foi separada do corpo e transformada no símbolo
dos amantes de madrugadas clandestina, de beijos roubados e de sexos trêmulos
e em meu crânio-relicário guardou-se a flor enamorada de um rouxinol
sendo o todo repartido, transformado em cinzas, convertido na droga alucinógena dos amantes

fui enforcado e meu sêmen fecundou as luzes de um futuro-prata
como a Lua sua, nascedouro de riachos rebeldes, jardins de amores puros
adormecidos sob o mundo branco dos cobertores finos e molhado pelas delícias sutís
do manjar dos deuses que contemplam a conjunção dos signos em fluxo

(L. F. Calaça | 10/01/2007)

Terça-feira, Janeiro 09, 2007
 

O Louco, Tarô de Marselha.

BEATITUDE

a Manoela

Quero uma canção serena
na noite dos enforcados
nas brisas do que tem guerra na alma
e avalanches de solidão.

Grito pela cura dos fracos encapuzados
que silenciam os horrores dos sonhos
e penetram a concavidades das artérias em chamas
dilacerando pétalas e montanhas de brisa.

Arrasto a eucaristia dos assuntos banais
e seguro a torre diluída das miragens
como quem perambula sonhos
e abrevia passagens rôtas.

(L. F. Calaça | 09/01/2007)

 


ORAÇÃO DAS DUAS ROSAS

Em teus lábios, minha criança, o Sol se deita
atravessando a janela entreaberta de minha boca
no silêncio contemplativo desse jardim-alcova
onde amamos a continuidade dos corpos.

Em teus lábios, rosa branca, encontro a santidade
dos piedosos que sorriem com olhar incerto
nos cílios de teus olhos, em suas pernas,
num encontro clandestino e sem rosário.

Em teu corpo, rosa trêmula, guardo o toque
na dança leve dos dedos e dos pés serenos
que caminham como plumas por meu corpo frio,
e se aquece o peito em dócil clama ressonante.

E do coração se desprende uma rosa cálida
envolvendo em êxtase o corpo, cálice sagrado.

(L. F. Calaça | 09/01/2007)


Segunda-feira, Janeiro 08, 2007
 
LARÁPIO

Corro no contorno deixando para traz despertador e radar.
Corro ao lado de um noviço com sabor de nectarina.
Corro explodindo as veias do pescoço, pulsando o corpo argila.
Corro atravessando a navalha na carne despida e sangue.

E os chicotes retalham sonhos a três travesseiros encantados
E as vidraças bandoleiam nas curvas curtas de minhas pernas
E a Lua penetra o véu dos amantes sofocando na última castanhola.

Corro arrastando as ventanias com meus rastros troteiros
Corro na areia milenar das ampulhetas ovais do zodíaco
como um orixá numa dança branca de orquídeas-dálias.

E as palavras gotejam do pulso ao incurso invertido.

(L. F. Calaça | 07/01/2007)

Sábado, Janeiro 06, 2007
 
ROBERTO PIVA LÊ SEUS POEMAS


Roberto Piva

Sou suspeito pra falar de Piva. Vejam por vocês mesmos.

Beijão.

L. F. Calaça.

LINK: http://www.youtube.com/watch?v=FAS4PciP35k&mode=related&search=

Sexta-feira, Janeiro 05, 2007
 

Murilo Mendes

CANTIGA DE MALAZARTE

Murílo Mendes

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.



Quarta-feira, Janeiro 03, 2007
 
FILM - Samuel Beckett

Uma de minhas primeiras descobertas logo que criei o RUÍNAS ALADAS foi Samuel Beckett, numa peça que assisti no TCA (Teatro Castro Alves), chamada "Comédia do Fim", dirigida por Luiz Marfuz, em 2003. Depois dessa peça, virei um fâ afixionado por este dramaturgo do teatro do absurto, e tudo a ele relacionado passou a me interessar.

Hoje encontrei no YouTube o "FILM", uma produção cinematográfica realizada a partir de um roteiro do autor, tendo como ator principal Buster Keaton.(Conheci Buster Keaton através de cenas de seus filmes presentes em "OS SONHADORES", de Bertolucci, filme e diretor que também devoto minha admiração cinéfica).

Deixo aqui a dica e os links para essa pérola do cinema e do teatro do absurdo de Samuel Beckett. Espero que gostem.

Samuel Beckett - Silent 1 Buster Keaton last Film : http://www.youtube.com/watch?v=IVC4ibYSb3I
Samuel Beckett - Silent 2 Buster Keaton last Film : http://www.youtube.com/watch?v=TaLkts8fnnE&mode=related&search=


Film, Samuel Beckett

Mais informações e imagens do "FILM" em: http://www.samuelbeckett.it/cinema.htm

Terça-feira, Janeiro 02, 2007
 
RECORTE

Tenho sonhos abortados na praia, como veleiros delirantes
como silêncios que deixam um rastro invisível dos relógios
debruçando canções sem fim, perdendo as horas quase mortas.

Meus olhos ressaqueados, perde água em correnteza-sangue
num som acústico de revoada em chamas. Pedido de socorro.
Alados os pedaços que se rompem da pele-corpo-espuma.

E as luzes se prendem na cidade sonâmbula, pedindo passagem
e pedágio para amores sem rosto, sem línguas, sem contorno.
Sou amor em tempo de quimera amarelada. Foto e mofo.

Pelegrino das noites insones, risco sombras no aparador.

(L. F. Calaça | 02/01/2006)

Segunda-feira, Janeiro 01, 2007
 
POEMA INCOMPLETO

A primeira noite do primeiro ano
como se as coisas estivessem paradas
amordaçadas sem destino possível
desejando os rastros segmentados
no sentir através das vibrações.

(Não sei se concluo nada além desse delírio
como canção sem partida ou regresso
delineando linhas fractais, mistérios azuis
de um dia refeito de avesso e contemplação)

Parte e pedaço num todo sem porvir.

(L. F. Calaça | 01/01/2007)